sexta-feira, 10 de julho de 2009

A HISTÓRIA DO GOLFINHO E DO TUBARÃO


"Mãe, porque somos diferentes?" perguntou um dia um golfinho à sua mãe que o seguia com ternura pelos corredores do oceano.


"Filho, nós somos mamíferos, sabes? Respiramos o oxigênio do ar, não da água, assim como os homens e..."

"Como as garças?" Interrompeu o golfinho.

"Sim, também, mas."


Distraído em seguir um cardume de peixes, o golfinho já não prestou a atenção à explicação. Não se importava.


Eram lindas as águas. Passavam como rosários com contas de cristal. Como sabia brincar entre elas, deslizar, correr, subir, descer, trepar entre cortinas de luz vindas do alto. Não havia melhor que isso. A terra era seca e ardia na pele. O mar sim, era maravilhoso.


Assim pensando, desviou-se o golfinho de onde a sua mãe havia parado para descansar. Nadou para cima e para baixo em guinadas divertidas como se estivesse numa montanha russa ou carrossel. De súbito parou. Silencioso e ilustre, deparou com um tubarão – o príncipe dos mares, atravessando a extensão iluminada pelo sol do meio-dia. Que belo! Sim, gostaria de ser como ele; assim senhor de si, nobre, elegante, fino, distinto, perfeito, respeitado por todos os peixes. O golfinho parou para apreciar esse membro da raça fina e senhor dos mares.


Seguiu-o. Como o invejava. Tinha uns movimentos seguros e cativantes. Ao seu passar, todos os peixes se desviavam com respeito, como se ele fosse um Deus, um peixe de ouro. Como gostaria de trocar com ele de lugar e ser também um tubarão – ser invejado por todos, ser rico, belo, chamar a atenção, conseguir tudo que quisesse, encantar todos os peixes do mar com a sua beleza.


Quando o tubarão subiu à tona, subiu ele também. Para lhe chamar a atenção, deu umas cambalhotas e até uns saltos fora da água. Que bom seria tornar-se seu amigo, ser seu igual, pertencer à mesma raça e mesma classe.


Nos seus saltos, então, deparou com uma traineira não muito longe de onde estavam. Lá estavam as criaturas de que sua mãe tanto falava, cobertos de algas coloridas sobre o rosto e fazendo sons como o vento sobre a água ou como o mar na praia.


De súbito, algo acontecia. De longe viu um dos seres debater-se nas ondas e apercebeu-se da sua angústia e aflição. Viu também, como da traineira um outro ser humano se atirava à água. Ao mesmo tempo viu surgir do fundo aquele que era o seu ídolo. Viu como ele se havia transfigurado, transformado numa fera hedionda, uma besta de dentes arreganhados, cego, furioso, mau – um demônio. Ele podia ouvir o rugir bestial e pavoroso. Como movido a elétrico, chapinhava a superfície com uma raiva louca, espalhando terror à sua volta. Como é que um ser tão belo, podia esconder tal ferocidade, produzir tal terror?


O golfinho viu como os homens lutavam com todo o esforço e como um deles, uma criança ainda, desfalecia e sangrava. Ele viu toda a bestialidade daquele que ele havia julgado tão puro, tão nobre, e ficou cheio de revolta. Não havia nada nobre agora naquele peixe cruel, quase satânico, feito um monstro horrível de se olhar.


De um momento para o outro, sem saber como, o golfinho viu-se deslizar na água com uma força estranha, que ele próprio desconhecia nos seus tenros anos. Primeiro desceu para tomar força e depois vertiginosamente subiu, vindo a embater contra o tubarão num ímpeto fenomenal. Atordoado, o príncipe dos mares, covarde e apressadamente se desviou do lugar. O golfinho ainda o seguiu e o atacou mais duas vezes. Depois já mais calmo, deixou descer ao abismo esse peixe formoso, mas mau. Deixou-o silenciosamente ondular no silêncio terrível e na dignidade assassina, assim desaparecer de vista e do seu coração.


Voltando à tona, o golfinho a seguir, percebeu que os homens também estavam alegres. Viu um deles abanar os seus membros e lhe atirar alguns peixes com carinho. Tinham trazido para bordo a criança e estavam à sua roda. O perigo já tinha passado.


"Que era isso?" Sentia-se tão bem entre esses seres. Eles, sim, pareciam ter o Sol dentro de si quando sorriam. Um dos que tinha estado na água até o acarinhou. Davam-lhe alegria e amor! Sim, gostaria de ser como esses pescadores um dia.Por uns instantes os seguiu cambalhotando e saltando cheio de alegria e emoção. Ah... se pudesse viver com eles! Mas depois lembrou-se da mãe. Tinha que lhe contar esta aventura de terror e de glória, e lá voltou aos bancos onde ela esperava ansiosa. Amanhã haveria de procurar o mundo dos homens e haveria de ficar com eles, haveria, Amanhã...
A Mosca
Adaptação de um Conto Chinês

Toda gente na aldeia conhecia o emprestador de dinheiro. Ele era um penhorista inteligente e rico, muito rico mesmo. No negócio como agiota há muitos anos, não lhe faltava o dinheiro. Tinha uma linda mansão e uma vida regalada. A casa era guardada por uns bons e enormes mastins e haviam jardins por todo o lado. Ainda assim, o negócio de fazer dinheiro estava-lhe nas veias, apesar de não precisar de trabalhar, continuava no negócio de emprestar dinheiro. Como os juros eram na norma muito altos, nem precisava tocar no próprio, vivia à custa dos seus rendimentos e dos juros do dinheiro que as pessoas lhe deviam.

Um dia, num dos seus passeios diários, dirigiu-se ele a casa de um dos seus fregueses, um quinteiro pobre que vivia no outro lado da aldeia. Este quinteiro já tinha sido admoestado muitas vezes para que pagasse a sua dívida, mas haviam sempre tantos contratempos e doenças, que o pobre homem cada vez mais endividado estava e nada podia fazer para mudar a sua situação. O rico usurário visitava-o assiduamente para o pressionar e o ameaçar sem dó nem piedade. O pobre homem trabalhava que nem um mouro de sol nascer ao sol-pôr, mas todo o dinheiro que fazia era logo sugado pelas tantas dividas que tinha. Nas suas visitas ao casebre, o emprestador de dinheiro fazia o propósito mesmo de trazer qualquer coisa que achava de valor, para se pagar dos juros, dizia ele, do dinheiro que o quinteiro lhe devia. Um dia era uma galinha; outro dia era um pato. Outra semana era um cesto de ovos e assim por diante.

Naquele dia, chegou ao casebre e não havia ninguém em casa. Só lá estava um rapazito de oito ou nove anos que brincava na terra, na rua em frente da casa.

“Rapaz, os teus pais estão em casa?” perguntou o homem batendo com o seu bordão de cana de bambu no ombro do menino.
“Não, Senhor!” respondeu o menino, continuando a brincar com as suas pedrinhas e espetosinhos, não prestando nenhuma atenção ao velho.
“Então para onde é que foram?” perguntou o velho aborrecido. O pequeno, contudo, continuou a brincar e não respondeu ao velho.
Quando o velho voltou a repetir a pergunta, o miúdo levantou a cabeça e respondeu com calma, “ Bem, tio Wang, o meu pai foi cortar árvores vivas e plantar árvores mortas. A minha mãe está no mercado a vender vento e a comprar a Lua.”
“O quê!!” Que raio de coisa é que tu estás para aí a dizer?” gritou o velho. “Pára de brincares comigo e responde-me como deve ser, onde é que estão os teus pais? Responde-me ou vais provar o peso deste bordão!” ameaçou o velho brandindo a sua vara de bambu. O miúdo olhou para o bordão e encolheu-se. O bordão era sim duro, metia-lhe medo, mas quanto mais o velho indagava pelo paradeiro dos pais dele, mais o menino repetia em forma de cantilena a resposta que já havia dado. Fulo, o penhorista acabou por prometer, “Está bem, está bem, diabinho, escuta-me! Eu vim hoje aqui buscar o dinheiro todo que os teus pais me devem. Se tu me disseres onde é que eles estão e o que estão a fazer direitinho, eu já não lhes cobro dinheiro algum. Percebes? Diz-me o que eu quero saber e os teus pais não pagam.”
Pela primeira vez, o rapazinho deixou de brincar com as pedrinhas e espetos à sua roda e virando-se para o velho retorquiu “O, Senhor, deve estar só fazendo troça de mim! O Senhor julga que eu vou acreditar no que tu estás dizendo?”
“Bem, moço, juro pelo Céu e pela Terra que o que prometo faço.” Afirmou o homem rico apontando para o alto e para o chão.
O rapazinho deu uma gargalhada. “Oh Senhor, o Céu e a Terra não podem ouvir ou falar e por isso não vão confirmar nada disso a ninguém. Jura porque qualquer coisa viva que não vais mais exigir o dinheiro que os meus pais devem.”
O velho olhou à roda e deparou com uma mosca pousada na balaustrada da varanda da casa. Rindo interiormente, porque ele realmente só estava a enganar o miúdo, o velho fez uma proposta, “ Ali está uma mosca. Em nome de Buda, ela pode ser a nossa testemunha. Agora vamos lá, diz-me para onde é que foram os teus pais e o que fazem direitinho. Como é que o teu pai poderá estar a cortar árvores vivas e a plantar árvores mortas? Como pode tua mãe estar a vender vento e a comprar a Lua?” Olhando para a mosca sobre a balaustrada, o rapaz começou a despejar, “ Bem, uma mosca é uma boa testemunha como qualquer uma outra. Pois, aqui vai, o meu Pai foi cortar cana de bambu aos canaviais; com esse bambu ele vai fazer uma cepa para um homem que vive perto do rio. E a minha Mãe… o Senhor jura que vai fazer como prometeu, não é? O Senhor perdoará ao meu Pai a dívida que ele lhe deve, não é assim? “
“ Sim, claro, prometo, em frente desta mosca como minha testemunha, juro!”

“Bem, já que assim é, como prometido, a minha Mãe foi ao mercado vender leques. Com o dinheiro que ela fizer, vai comprar petróleo para os nossos candeeiros. Não é isso o mesmo que dizer que isso é vender vento para comprar luz?”

O velho sacudiu a cabeça e teve que admitir que o rapaz era esperto, só que quem é que iria acreditar em promessas tendo como testemunha uma mosca. O fedelho do rapaz tinha ainda muito que aprender.

O velho despediu-se do rapaz e disse-lhe que havia de voltar para anunciar a dívida paga aos seus pais. Uns dias mais tarde, de facto, lá estava ele. Como era tarde da noite, estavam todos em casa. Uma cena deplorável seguiu-se. Ele exaltou-se e exigiu o seu dinheiro logo e já. O barulho da briga acordou o rapazinho que se levantou e dirigiu-se ao pai. “Pai, pai, o Senhor não tem nada que pagar mais essa dívida. Este Senhor prometeu-me que não era mais preciso fazê-lo. Ele jurou-me que perdoaria essa dívida. O Pai está livre! Não lhe deve, não, nada.”

O homem rico ficou fulo e brandiu o seu bordão de bambu uma vezes contra o pai outras vezes contra o miúdo. Ocorreram os vizinhos e para todos o miúdo no seu tom de menino, com voz fina, garantiu que o velho tinha jurado perdoar a dívida ao seu pai e que agora se estava a esgueirar do prometido. Os vizinhos juntaram-se ao banzé e resolveram então levar o caso ao Juiz encarregado da justiça na província. O pobre quinteiro e mulher não sabiam mais o que fazer, por isso levaram o filho consigo que firmava e reafirmava que o velho lhe tinha prometido e prometido era prometido.

Mal o juiz chegou perguntou ao rapaz se o velho tinha feito a promessa só a ele, como haveriam todos de acreditar. Perguntou se tinha havido uma testemunha, ao que o rapazinho acenando com a cabeça, respondeu que de certo. O Juiz inquiriu, quem tinha sido a testemunha. O rapazito respondeu, “uma mosca ‘bareja’ (varejeira)!” A palavra ecoou pelos quatro cantos da sala, onde todos haviam congregado para seguir o que se ia passar, “Uma mosca! uma mosca!” O juiz empertigou-se e franzindo o sobrolho e levantando o dedo indicador, admoestou, “ Olha lá rapaz, aqui não é lugar de brincadeiras! Eu não estou aqui para brincar!”
O velho ria-se, vendo o caso já ganho. “Uma mosca,” riu-se virando-se para todos, “uma mosca!”
“Sim, uma mosca,” gritou o menino, “uma mosca ‘bareja’ (varejeira)”
O velho ficou furioso e começou a ameaçar o rapazinho e chamar-lhe de mentiroso de uma figa.
“Sim, uma mosca que lhe pousou no nariz!” exclamou a criança.
O velho exaltou-se de tal maneira que o seu rosto se tornou vermelho como um tomate, “Mentiroso de uma figa, malvado rapazinho, nem sequer foi no nariz , mas na balaustrada da varanda, seu fedelho, na balaustra…” tarde de mais. Todos se tinham calado e compreendido que o rapazinho havia ganho o jogo. O velho havia admitido perante o juiz que prometido tinha ele realmente em frente a uma mosca. O juiz sem querer começou a rir e riu e riu sem parar, aguentando o seu grande buxo. Riram também os pais, os vizinhos, as crianças que tinham ocorrido também ao lugar. Também pareciam rir as moscas penduradas no tecto. Só quem não riu foi o velho rico, apanhado na cilada. Por fim, o juiz parou e numa voz sentenciosa proferiu a sua decisão, “Portanto, está tudo resolvido, promessa é promessa e jura é jura, a dívida deste senhor está liquidada por promessa feita a este menino na presença de uma mosca, uma mosca varejeira. O Senhor está ilibado de toda a dívida ao senhor Wang e o senhor não faça mais promessas que não pode, nem quer cumprir, nem engane ninguém. De hoje em diante tenha cuidado com as moscas, que elas vêem e ouvem tudo. Caso fechado.”
Toda a gente cumprimentou o quinteiro e riram; e riram. No seu caminho para casa, batiam nas costas do menino e lhe mexiam no cabelo em forma de carinho. Só mal disposto, saiu o agioto resmungando e rogando mil coriscos. As moscas, bem, cuidado com as moscas, que elas tudo ouvem e tudo vêem. Cuidado com a mosca, toda a mosca, especialmente se mosca “bareja!”

Silvério Gabriel de Melo
Adaptação e versão portuguesa de um conto Chinês, Globe Fearon’s World Literature

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A Marota Maria e o Presidente da Junta de Freguesia

Marota Maria

Havia numa certa freguesia na Checoslováquia um camponês sovina e desonesto. Andava sempre a enganar e a burlar os seus vizinhos. Um dia prometeu dar uma vaca a um pastor seu vizinho para uma série de tarefas que o encarregou de fazer. Depois do serviço feito, o camponês despachou-se do pobre pastor com uma desculpa qualquer e não lhe entregou a vaca como havia prometido.

O pastor não tomou mais medidas, foi daí e dirigiu-se ao novo presidente da junta de freguesia para resolver o caso. O presidente da junta de freguesia sendo um jovem inexperiente escutou os dois lados do conflito e depois de uns momentos de reflexão, respondeu-lhes, “ eu não irei decidir este caso. Em vez disso dou-vos uma adivinha com quatro respostas para resolverem. Aquele que tiver a melhor resposta fica com a vaca.”

O pastor e o camponês concordaram. O presidente da junta de freguesia então expôs as adivinhas, “Ora bem, aqui estão as adivinhas: Qual é a coisa mais veloz do mundo? Qual é, a coisa mais doce do dia à dia? Qual é a coisa mais rica que há? Qual é a coisa que quanto mais dá mais fica? Pensai bem e vinde trazer-me a resposta amanhã à mesma hora. Estamos combinados, agora ide, deixai -me em paz!”

O camponês foi para casa furioso. Quanto mais pensava nas adivinhas, mais furioso ficava, porque não conseguia dar tafulho às respostas. “Que género de presidente de junta da freguesia é este homem?” rezingou entre palavrões. “Se ele me tivesse deixado ficar com a vaca, eu ter-lhe-ia enviado um cesto de figos de figueira, mais batatas e feijão, agora, figas…” e rogava uma séria de coriscos a quatro. Chegou mesmo a dar um pontapé mal-humorado contra um gato que se lhe atravessou no caminho.

Ao vê-lo assim tão perturbado, a esposa perguntou o que estava a acontecer. Ele explicou que o novo presidente da junta de freguesia andava agora a resolver os seus casos com adivinhas. O último presidente da junta de freguesia ter-lhe-ia deixado ficar com a vaca e mandado à fava aquele palerma de pastor.

“O, homem, diz-me lá do que constam as adivinhas?” O homem partilhou as adivinhas com a esposa, que logo lhe afiançou que tinha as quatro respostas, que eram até muito fáceis. Primeiro, “a nossa égua Parda é a mais veloz do mundo. Olha ninguém lhe passa à frente quando vamos pela estrada.” Segundo, “ o nosso mel, Manuel, não é o melhor e do mais doce do mundo?” Terceiro,” o teu cofre, Manuel, não é o dos mais ricos aqui da terra? Tu já vens a poupar dinheiro há quarenta e tal anos. Tem que ser o tesouro mais rico do mundo, e quarta e última, bem, deve ser a tua fortuna, pois quanto mais queres mais tens.”

“O mulher, tu és um tesouro. Está claro que tens razão. A gente vai mas é ficar com a vaquinha e o tolo do João fica a ver bugalhos. Ah, agora, sim, até me sinto muito, muito melhor! O, mulher, tu tiraste-me um peso de cima das costas!”

Enquanto isso o pastor chegou também a casa. Ele tinha uma filha muito esperta que se chamava de Maria. Ela foi ao encontro dele e perguntou, “Então, pai o que foi que o presidente da junta de freguesia lhe disse?”

O pobre pastor encolheu os ombros e retorquiu, “Acho que vamos é mesmo perder a vaquinha; não há maneira nenhuma de eu atinar com as respostas às três das suas perguntas,” e explicou o que tinha acontecido. A filha pediu para que ele lhe contasse a adivinha. Ele assim fez.

No outro dia ele partiu direcção à câmara. A filha indicou-lhe o que havia de responder. Quando chegou, já o camponês ali estava. Esfregava as mãos de contente e ria-se de uma forma descarada para o pastor, como se já tivesse ganho a acção.

O presidente da junta de freguesia chegou, sentou-se, repetiu a adivinha e pediu para que um deles lhe fornecesse de imediato as suas respostas.

Senhor de si, o camponês avançou “Ó, meu senhor, então é a coisa mais fácil deste mundo. Primeiro, trata-se de certo da nossa égua Parda, Não há cavalo algum assim veloz como ela. Nenhum lhe passa à frente, não senhor. Quanto ao mais doce. Ó Senhor doutor, então já provou do nosso mel? Não há nada mais doce do que o nosso mel. Assim dizem todos quando o provam. Quanto ao mais rico, o senhor doutor sabe que o meu cofre, o meu cofre deve ser o mais rico desta terra, pois já estou a amealhar dinheiro há quarenta anos, sem nunca de lá tirar um centavo. É dos mais ricos do mundo, lhe afianço. Quanto à ultima pergunta, deve ser a minha fortuna, pois quanto mais quero, mais tenho. É isso senhor doutor, é isso.” De seguida dando uma olhadela de soslaio para o pastor dirigiu-lhe um risinho escarninho e voltou a sentar-se no seu banco.

“E tu, então que dizes?” interpolou o presidente de junta de freguesia. O pastor agarrado ao seu boné, fez uma vénia e respondeu, “Bem, Senhor doutor, a coisa mais veloz do mundo deve ser o pensamento. O pensamento pode num abrir e fechar de olhos atravessar o universo. A coisa mais doce do mundo deve ser, bem, o dormir, especialmente depois de um dia de trabalho árduo, ou de muito pensar, faz bem dormir. Até para quem está triste não é o sono uma doce bênção? Não dormir é uma tortura; quem não dorme fica mal disposto; torna-se azedo e ríspido. Ninguém dormiria se fosse amargo fazê-lo. Quanto ao que é mais rico do mundo, diria a terra, pois é da terra que vem toda a riqueza do mundo. Até nós somos feitos de pó e ao pó havemos de voltar, quanto ao que mais de si dá mais tem, pensando bem, é o pensamento pois que quanto mais de si dá, mais de si tem.”

O presidente da junta de freguesia levantou-se e exclamou, “ muito bem, muito bem, sim, senhor. A vaca vai para si.”

“Como, assim? Gaguejou o camponês? Espere aí, veloz, o pensamento? Doce, o sono? Rico, o pó? O Pensamento? Ora, como é isso?

O presidente da junta de freguesia correu para o pastor e cumprimentou-o. Agora diga-me, quem o ajudou com as respostas? Estou certo que teve uma ajudinha, diga-me lá a verdade.”

A princípio, o pastor não quis revelar a verdade, Mas depois, como o presidente da junta de freguesia insistia lá lhe revelou que tinha sido a sua filha Maria.

O jovem presidente da Junta de freguesia para experimentar a esperteza da tal Maria, mandou que lhe trouxessem uma dúzia de ovos. Quando lho trouxeram, ele entregou ao pastor e disse, “ Diz à tua filha que eu quero ver amanhã os pintainhos que saírem destes ovos hoje.

Quando o pastor chegou a casa contou o que tinha acontecido e quando entregou a filha a dúzia de ovos, ela riu-se e tomando sementes de trigo deu ao pai e mandou-o de imediato para o presidente da junta de freguesia. “Pai, diga-lhe que a sua filha lhe envia estes grãos de trigo para que ele as semeie. Se ele semear estas sementes, as fizer germinar e ceifar hoje mesmo, eu enviar-lhe-ei os doze pintainhos que sairão deste ovos, para eles irem comer o grão de trigo que delas crescerão amanhã como desejado.

Quando o pastor entregou as sementes e explicou o que a filha lhe tinha dito, o presidente da junta de freguesia riu-se divertido e disse, “Se a sua filha é tão bonita como esperta, eu casarei com ela. Diga-lhe que ela me venha ver, mas não venha nem de noite, nem de dia, não venha a cavalo, nem a pé, não venha nem vestida, nem despida.”

Quando Maria recebeu a mensagem esperou até de madrugada, quando já não era noite, mas não era dia. Ela cobriu-se com uma rede de pescador, não estando nem despida, nem vestida e colocou-se sobre uma cabra, com um pé por cima e um pé no chão, estando nem a cavalo, nem a pé. Assim se dirigiu ao escritório do presidente da junta de freguesia. Quando lá chegou, explicou, “ Senhor doutor, aqui me tendes. Não é já noite, mas também não é dia, não estou despida, nem vestida, não vim a cavalo, nem a pé, e aqui me tendes.”

O presidente da freguesia ficou maravilhado com a beleza e esperteza dela e tratou logo do casamento.

Casaram-se. O presidente da junta da freguesia a certa altura avisou a esposa que ela nunca se deveria intrometer nas suas decisões. No dia que o fizesse voltaria para o seu pai.

Um dia, em que o presidente da junta da freguesia estava mais aborrecido, vieram ter com ele dois camponeses para que ele resolvesse uma disputa. Um deles afirmava que a sua égua tinha dado á luz um potro. O potro correu para debaixo da carroça do outro. O dono da carroça mantinha que o potro era seu, que o potro tinha sido encontrado debaixo da sua carroça e portanto ele é que tinha direito a esse potro.

Aborrecido, o presidente da junta de freguesia concordou com o dono da carroça e deu-lhe o avante para que ficasse com o potro. Quando o dono da égua ia a sair da casa do presidente encontrou-se com a esposa desse, que indagou o porquê de ele estar tão triste. A esposa envergonhou-se da decisão do marido e pediu desculpa. Virou-se para o camponês e disse-lhe, “Olhe, venha hoje à tarde com uma rede de pescador e estende-a no chão. Quando o presidente da junta o vir, virá ao seu encontro e indagará sobre a razão de colocar uma rede de pesca no meio da rua. Responda-lhe que está a pescar. Ele perguntará onde irá encontrar peixe no pó de uma estrada? Diga-lhe que é tão fácil pescar peixe numa estrada, como fácil é para uma carroça dar à luz um potro.

Tudo decorreu como previsto. O presidente da junta de freguesia caiu em si e pediu desculpa, determinando que o potro lhe deveria ser entregue. A seguir ele perguntou quem o tinha ajudado a fazer o que ele fez. O camponês ao princípio não queria revelar a verdade, mas dado a insistência do presidente da junta de freguesia, lá admitiu que tinha sido a esposa desse. O presidente da junta de freguesia ficou furioso. Foi ter com a esposa e fez-lhe lembrar que ela não se deveria ter intrometido em nenhuma das suas decisões, boas ou más. “Olha, tomas as tuas coisas e parte para o teu pai! Não quero saber mais de ti! Podes, contudo, levar do que mais gostas desta casa. Agora parte!”

Maria aceitou tudo com muita calma, mas pediu que só partiria depois de um bom jantar juntos. Afinal ela queria que partissem como amigos e não inimigos. O marido acedeu e ela pôs-se a confeccionar os melhores pratos que sabia que ele gostava. Seguiu-se um lauto banquete. O presidente da junta de freguesia comeu até mais não poder. No fim do jantar adormeceu. Tão profundo foi o sono, que nada o conseguiu acordar. Foi nessa altura que Maria ordenou que o colocassem na carruagem. No dia seguinte, quando o presidente da junta de freguesia acordou viu-se na casa do sogro. Levantou-se furibundo, “Então o que quer dizer isto?”

Muito simples, deste-me o consentimento de trazer o que eu mais queria ou gostava da casa. Pois, sabei que o trouxe porque o que eu mais queria e gostava da casa, era a si. Obedeci às suas ordens. O que há de errado nisso?

O presidente da junta de freguesia olhou para ela atónito e confessou “Vós sois mesmo o máximo! Ganhais. Sois realmente muito inteligente. Eu peço perdão por tudo e voltemos. Eu prometo acatar o vosso sentido de justiça e de me aconselhar convosco. De agora em diante nunca mais nos separemos. Prometo.”

Assim, eles voltaram para a carruagem e ao seu lar. Nunca mais houve desentendimentos entre ambos, já que se aconselhavam e respeitavam mutuamente, também respeitavam e eram justos para com todos em seu redor.

O camponês avarento com a senilidade repetia muitas vezes a formula, “Veloz como o pensamento, doce como o sono, rico como a terra! Quanto mais dá mais fica!” “Rico como o sono, doce como o pensamento, veloz como o pó ou será, veloz como o sono, rico como o pensamento e doce como o pó!”

Adaptação de um conto checoslovaco
Silvério Gabriel de Melo


quarta-feira, 1 de julho de 2009

sábado, 26 de janeiro de 2008

Acores Cosmologia (Conto)

Conto da Criação dos Açores
(Conto inédito)

Em tempos que já lá vão, tempos antes de todos os tempos, quando o mundo estava cheio de fadas e duendes, náiades e gnomos, por todo o lado haviam vibrações, ondas de luminosidade que, ora refulgiam, ora se esvaneciam num bailado vivo de luz, cor e música. Tudo luzia, tremeluzia, maravilhava.

Nessa altura não haviam nem sol nem estrelas ainda, mas uma fonte de luz permeava toda a existência em tons de vitalidade mágica. Essa luz entranhava-se por todo o lado de uma forma difusa, um mundo de brumas encantadas. Ondas maravilhosas de vibrações tudo criavam, sustentavam ou tornavam visível. Era um mundo encantador.

Num dia desses, alguém numa voz maviosa chamou, “Meninos, meninas, venham aqui!”
Uma senhora toda vestida de luz chamava seus filhos, que eram nove.
“Filhos, filhas onde é que vocês estão metidos?”
“Aqui, Mãe, aqui!”
Um grupo de crianças, cada vestida de uma cor diferente, apareceu. Vinham sorridentes. Uma vestia de amarelo, um outro vestia verde. A terceira vestia lilás, ao lado dela um vestia castanho, por detrás, outro vestia de azul. Ao meio, um mais alto vestia cinzento. Uma criança muito graciosa vestia branco. Mais retirada, apareceu uma vestindo cor-de-rosa. Trazia pela mão um menino vestido de veludo preto. Eram crianças bonitas, alegres, fortes e rosadas.
“Onde estavam vocês?”
“Brincando,” responderam eles quase em uníssono.
“Brincando… vejo. Sabem, tenho que ir numa volta. Vocês fiquem aqui, mas daqui não se sai! Entenderam? Eu vou, mas vocês saibam que os terei de vista o tempo todo. Sabem disso, não é?”
“Sim mãe, sabemos.”
“Pois bem, até logo! Eu volto. Comportem-se, está bem?”
“Está bem, Mãe.”
Sentados no areal de luz, os meninos e as meninas puseram-se a brincar com os grãos de areia que luziam quais lantejoulas. Juntos, trauteavam uma canção que gerava ondas de luz:

Areia, areia, da cor do marfim
Areia, areia, fina qual farinha
Areia mil grãozinhos pequeninos assim
Areia cor de oiro e prata, quentinha

Atiro a ti e tu atiras a mim
Uma mão cheia de areia, de areia cristalina
No ar que belo como tremeluz assim
Cada grão de areia virada a estrelinha



A certa altura, apareceu por ali um deus, todo vestido de azul. Os seus olhos eram de um azul-marinho e os seus cabelos de um louro cor da espuma do mar.
“Posso juntar-me a vocês?” perguntou o deus.
“Sim,” responderam-lhes os meninos; “Como te chamas?”
“Poseidon é o meu nome.”
“Quem te mandou para aqui?”
“A vossa Mãe foi quem foi.” Respondeu-lhes o deus.
“Queres brincar connosco, Poseidon?”
“Sim, mas vocês que esperem, porque não constroem mundos de areia em vez de a atirar para o alto?”
“Que linda ideia, exclamou Maria. Eu sou a primeira.”
“Eu o segundo,” gritou Miguel acocorando-se no areal e começando a sua tarefa de construir seu mundo de areia.
“Sou a terceira, mas hei-de ser a primeira a acabar,” juntou-se-lhes a Terceira.

Daí, começaram todos a erguer montes e vales, ribanceiras, serras, lagoas, belezas sem fim. De vez em quando um dos meninos ia e por brincadeira atiçava um dos irmãos ou irmãs. “O meu mundo é mais bonito do que o teu,” dizia um;
“ Não é, o meu é o melhor.”
“São todos bonitos, estão todos a fazer mundos maravilhosos,” respondia-lhes Poseidon, para que houvesse harmonia entre todas as crianças.
“Porque não nos ajudas?” sugeriu Miguel?
O deus Mar acedeu e agachou-se junto às crianças para as ajudar.
“Venha aqui Mar, venha aqui Mar. Ajude me a mim,” gritava a Terceira.
“Não, Mar, eu e que preciso de ajuda,” choramingava o Corvo.
“Ora, vocês que se ajudem uns aos outros,” sugeriu o Mar, “ Tu Miguel, ajuda Maria; Terceira, Graciosa e Jorge porque estão mais perto uns dos outros, ajudem-se entre si. Faial ajuda o Pico que é o mais novinho. Tu, Flor ajuda o Corvo que está mais perto de ti e é o mais pequeno. Miguel, ajuda os outros pois parece que já acabaste e não tens mais que fazer.”
“Eles que se ajudem a si próprios,” resmungou Miguel. “Eles que façam o que eu fiz.”
“Não vês que não são tão fortes e tão ágeis como tu? Tenta ajudá-los.”

Estavam tão concentrados na sua criação que não notaram que um touro e um dragão tinham de súbito consubstanciado. Ambos encetaram uma batalha horrível. O Dragão exalava uma fumaça espessa. A certa altura uma coluna de fogo atingiu cada mundo que as crianças haviam construído, solidificando-os e queimando-os. A areia que era antes bonita e clara tingiu-se de cinzento. Tudo virou a lava e basalto; espezinhado pelo dragão e o touro cada mundo ruiu e perdeu a beleza original. Os meninos e as meninas esconderam-se atrás de uns rochedos por ali perto, estarrecidos. O mar abraçava-os, tentando protegê-los.

Entre estrondos fenomenais e erupções horrendas a batalha entre o touro e o dragão continuava, isso tempo sem fim.

Umas vezes, o Touro investia contra o dragão; outras vezes, o dragão avançava expelindo fogo das suas entranhas e incendiando tudo à sua roda. Devido a essa batalha tudo em redor atingiu um aspecto desolador. Cheirava a enxofre; a terra ardia e um lamaçal espezinhado e ardido surgia onde as crianças haviam brincado.

O Touro por sua vez ora investia contra o dragão, ora investia contra Poseidon, que entretanto tinha tomado a sua capa azul e tentava afastar ambos os monstros para longe dali.

Rugindo entre estrondos medonhos e colunas de fogo, os dois monstros seguiram o deus Mar. Esse trepou uma falésia que se erguia sobre uma enorme fenda. Ao fundo, bem no fundo havia um vácuo; um terrível vácuo.

Arfando e baixando os seus chifres aguçados que nem agulhas, o touro investiu contra o deus Mar. Da mesma forma o Dragão entre colunas de fogo e fumo avançou sobre ambos.

Quando ambas as feras estavam prestes a cair sobre o deus mar, este último, usando da sua magia lançou-se pela fenda dentro.

No mesmo momento transformou-se num imenso oceano que era, o deus Neptuno. A sua capa azul transformada num enorme vagalhão cobriu todo o areal. À superfície da água ficaram somente as criações das crianças. Uma enorme cascata num turbilhão ruidoso inundou a fenda que levava ao vácuo. Um remoinho de mil águas em estrondos espectaculares irrompeu pelo abismo dentro.

O touro, que não era outro senão Júpiter, seguindo o deus Mar, cegamente tombou pela enorme fenda abaixo. Conforme caiu, toda a realidade virou ao avesso. Houve um grande estrondo e o universo todo despenhou-se com ele no abismo. O dragão que lhes seguia transformou-se em puro fogo e os três eclodiram num colapso total como alguém que houvesse batido palmas para que houvesse… luz.

De um momento para o outro, conforme tudo se precipitava no vácuo, à velocidade da luz, toda essa realidade mágica passou à realidade da matéria bruta como a conhecemos. Em segundos todas as criaturas de luz e encanto; todas as vibrações e fulgor divino dessa realidade ficaram presas das coisas. Uma espessa neblina de partículas cobriu o mundo todo e quando se tornou a dissipar surgiram as galáxias e as estrelas. O mundo tornou-se num mundo em queda vertiginosa através do espaço.
“Mãe, gritaram as crianças! Mãe!”
Surgiu o Sol, a sua Mãe, que logo fez com que cada criança caída no vácuo orbitasse em seu redor. Á noite a sua luz, a luz do luar inunda o mar e aconchega cada criança para que durma.

O Dragão impulsionado para o alto ficou gravado entre as constelações da Ursa Maior e da Ursa Menor. O Touro gravado ficou na constelação de Touro junto à de Orião, o caçador mágico.

Livre do touro, o deus Mar, que não é outro senão Neptuno, banhou toda a mágica praia, mas já não pôde mais transformar-se em quem tinha sido. A fenda, não passa do oceano Atlântico que separa os quatro continentes que são a Europa, a África, a América do Norte e América do Sul.

As armações feitas pelas crianças transformaram-se em ilhas que o Mar abraça e protege. As crianças transformaram-se em seres de bruma, nuvens que em lhes iluminando o Sol se transformam em estratos multicores como se auroras boreais se tratassem. Vestem ainda amarelo, verde, lilás, encarnado (castanho), azul, cinzento, branco, cor-de-rosa, negro, que são também as cores dos arrebois maravilhosos que se vislumbram nos Açores. Outras vezes são os arco-íris que surgem como se a brincar entre as nuvens quando chove e faz sol ao mesmo tempo. O mar sabe que esses arco-íris não passam das nove crianças a brincar com arcos de luz.

De vez em quando ora ventos, ora tremores de terra, ora fogo surgem entre elas a lembrar aquele dia em que do nada se fez tudo e tudo se fez ao nada. Os cagarros são aquelas aves que vêm do mar e parecem relatar o princípio da toda a existência com o seu grito sem fim que parece dizer “é água, é água, é água!”

Silvério Gabriel de Melo